quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Capítulo 4, episódio: O telefonema

- Dora? - ele disse do outro lado.

Silêncio

- Dora? Sou eu, Jairo.

A cabeça dela dava mil voltas, sentia-se como a Medusa, a cabeça cheia de cobras venenosas espalhando venenos fatais pelo seu sangue.

- O que você quer?

Ele respirou. Conhecia bem aquela respiração pesada. "O velho estava carente" uma das cobras na cabeça lhe disse.

- Dora, eu liguei pra saber se você está bem, me deu uma saudade, Hoje a tarde passei perto do seu prédio me deu vontade de saber de você. Olha… eu sei que não devia, mas deu vontade de te ligar eu... eu... sinto sua falta.

Silêncio.

- O que cê tá fazendo? Tá ocupada? A voz dele soava baixa, abafada, como se ele estivesse ligando de um lugar escondido para não ser ouvido.
Claro! Com certeza para não ser ouvido pela idiota da vez! Será que estava com a mesma pela qual ele a tinha a deixado? Ah! Mas que gentil! Quer saber se estou bem!
-Dora? Você está ocupada?
E mais uma dose de silêncio.
Ela não conseguia responder, o que ele queria afinal? O que esse babaca escroto quer agora? E o movimento das cobras em sua cabeça lhe insistiam para mentir.

- To fazendo a unha Jairo.
-Hummm- Ele suspirou.
Silêncio.
- Dora, eu estive pensando se não poderíamos nos ver esses dias... Eu queria realmente conversar com você... eu...sinto... eu sinto muito sua falta.

Ela pensou em dizer pra ele passar no apê dela. Pensou em dizer pra ele vir. E pensou em pedir para que tudo voltasse a ser como antes. Sentiu uma dor no peito, arfou. Ajeitou a coluna sentada no parapeito.
Não disse nada. A maconha a tinha deixado completamente amortecida, por um segundo pensou se aquela conversa estava realmente acontecendo ou era só uma ilusão de sua cabecinha problemática.

- Dora? Fala comigo.
- Eu tô cansada... Tava indo dormir... Tenho um compromisso cedo amanhã – mentiu.
- Tudo bem. Podemos nos ver?

Jairo e seus cabelos negros ondulados, penteados caprichosamente para o lado, seus braços fortes e sua voz máscula e rouca de quem fumou a vida toda. Seu cheiro quente e seu terno impecável. Jairo e seus 1,80 de altura, seu corpo atlético e seus olhos castanhos escuros que brilhavam tanto depois do sexo. Suas calças sempre muito bem passadas e seus sapatos lustrosos. Sua elegância e sua gentileza. Jairo e sua mania de lhe abrir a porta do carro, de puxar a cadeira, de caminhar do lado de fora da calçada. Jairo e seu jeito de proteger.

Ah Jairo!

Jairo e seu veneno, suas mentiras, sua teia de engano, sua canalhice e escrotidão. Seu rio fétido e suas garras que a feriram tanto. Vampiro que a sugara. Demônio que a levara para o mais escuro inferno. Jairo e seu veneno fatal.

- Não sei... não consigo pensar agora. Olha… eu estou realmente cansada... me liga outra hora.

Silêncio, respiração pesada.

Jairo porque você não morre? Era o que queria ter ditto, mas não disse.
Talvez se ela bolasse um plano, marcasse um encontro e o matasse? Talvez ela se libertaria finalmente e finalmente pudesse ser feliz.

- Ok, te ligo no meio da semana que vem.... Dora... eu estou com saudades... enfim... descanse... a gente se fala. Até mais.

Ela desligou.

Que porra é essa agora?

Teve vontade de chorar. Se sentia uma fraca... Tão fraca ela! E qual era o problema? O problema era que aquele homem ainda mexia com ela, com seus sentimentos.

Mulherzinha, mulherzinha abandonada! Eu te avisei que esse homem te maltrataria, cretininha da mamãe!, sussurravam as vozes-cobras de sua cabeça.
Aquela maldita dor no peito de novo, enquanto Ney matogrosso ia gritando no rádio que a noite daqui é tão linda e faz a gente se perder. Apoiou os pés no chão, mãos sobre o peito e mais uma vez naquela semana ela chorou com-pul-si-va-men-te. Chorou feito criança. Chorou como uma menina perdida no parque. Chorou como uma menininha perdida, vestindo uma saia de tule rosa, presa a um colant mais rosa ainda, de bailarina.

3 comentários:

  1. Menina conte o capitulo 5 PELO AMOR!!
    To muito curiosa, me identifiquei muito na história... A poética melancólica lembra os meus poemas. :)

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  2. Oi Ge, essa semana sai o quinto!

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a menina quer te ouvir...